A saúde do intestino e a prevenção de doenças graves voltaram ao centro das atenções em todo o país. O aumento de casos de tumor de cólon e reto em pessoas mais jovens e a repercussão de histórias públicas, como a da cantora Preta Gil, trouxeram à tona uma conversa urgente sobre o câncer colorretal.
Apesar de ser o terceiro tipo de câncer mais frequente no Brasil, esse é um assunto ainda cercado de tabus e desinformação. O sistema digestivo envia sinais diários sobre o seu funcionamento, mas a correria da rotina muitas vezes faz com que pequenos desconfortos sejam ignorados. Compreender o próprio corpo e buscar orientação médica no momento certo é o primeiro passo para proteger a vida.
Para esclarecer as principais dúvidas sobre causas, exames e prevenção, conversamos com a Dra. Bruna Meirelles Carregaro, médica coloproctologista, que detalhou como identificar os primeiros sinais e a importância de cuidar do intestino no dia a dia.
O que é o câncer colorretal e por que o assunto veio à tona?
O câncer colorretal abrange os tumores que se desenvolvem na região do intestino grosso, compreendendo o cólon e o reto. Na grande maioria das vezes, a doença começa de forma discreta com o surgimento de pólipos intestinais. Se esses pólipos não forem identificados e retirados a tempo, eles podem sofrer alterações nas suas células ao longo de anos e se transformar em um tumor.
A grande preocupação dos médicos nos últimos anos é o avanço dessa condição em adultos com menos de 50 anos. O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, o sedentarismo e o estresse da vida moderna estão entre os fatores que aceleram esse cenário na população urbana.

Qual foi o câncer da Preta Gil e por que falar sobre isso agora?
Muitas pessoas pesquisam sobre qual câncer da Preta Gil acometeu a artista para entender melhor a gravidade e o tratamento da condição. A cantora foi diagnosticada com um adenocarcinoma na porção final do intestino (no reto) e compartilhou abertamente sua jornada de exames, cirurgias e tratamento.
O debate gerado por esse caso tem um impacto positivo fundamental: desmistificar a doença. Falar abertamente sobre o trato digestivo estimula as pessoas a perderem a vergonha de conversar com seus médicos sobre hábitos intestinais, formato das fezes e exames preventivos.
Quais são os sintomas iniciais do câncer colorretal?
Em suas fases iniciais, a doença pode ser bastante silenciosa e não provocar dor expressiva. No entanto, o organismo dá pistas sutis quando algo não vai bem na digestão e na evacuação.
Segundo a coloproctologista Dra. Bruna, o erro mais comum é esperar que ocorra um sangramento evidente para só então procurar ajuda médica. “Muitas vezes a pessoa não precisa sangrar para que a gente suspeite da doença. Qualquer mudança persistente no padrão de ida ao banheiro já é um motivo importante para investigação”, alerta a médica.
Fique atento aos sinais nas fezes e na rotina intestinal
As mudanças bruscas em fezes ou no comportamento intestinal que duram semanas sem uma causa aparente (como uma virose ou intoxicação alimentar), podem ser sintomas de câncer.
Preste atenção aos seguintes sinais de alerta destacados pela Dra. Bruna:
- Mudança na frequência: se você sempre evacuava diariamente e passou a ir ao banheiro a cada quatro ou cinco dias — ou o inverso, se tinha o intestino preso e passou a ir várias vezes ao dia.
- Alteração na consistência e formato: fezes que ficam subitamente muito líquidas, pastosas ou que saem afiladas (finas como um lápis).
- Esforço e sensação de esvaziamento incompleto: ter que fazer muita força para evacuar ou sentir que ainda sobrou algo no intestino mesmo após ir ao banheiro.
- Perda de peso não explicada: emagrecer sem estar fazendo dieta ou atividade física direcionada.
- Cansaço e anemia: sentir fadiga constante causada pela perda invisível de sangue no trato digestivo.
- Dor abdominal recorrente: cólicas, gases em excesso ou desconfortos frequentes no pé da barriga.
Vale ressaltar que sentir algum desses sintomas não significa ter um tumor. Condições simples, como fissuras anais, hemorroidas ou intolerâncias alimentares, causam quadros parecidos. Contudo, cabe ao médico fazer os exames necessários para descartar problemas graves.
Como é feito o diagnóstico e a prevenção com exames?
A melhor forma de combater o câncer de cólon é agir antes mesmo de a doença dar qualquer sinal. A medicina conta com testes preventivos de rastreio para identificar pequenas alterações na mucosa intestinal bem no começo.
Entre as opções iniciais estão o exame de sangue oculto nas fezes e o teste FIT (teste imunoquímico fecal), exames simples e acessíveis que detectam traços microscópicos de sangue. Se algum desses testes der positivo, o médico encaminhará o paciente para realizar o exame definitivo: a colonoscopia.

Colonoscopia: qual médico faz e com quantos anos agendar?
A colonoscopia é o exame padrão-ouro para cuidar da saúde intestinal. Ela funciona através de uma pequena câmera flexível que permite ao médico visualizar toda a superfície interna do intestino grosso.
Se você se pergunta qual médico faz a colonoscopia, saiba que o exame é realizado por um coloproctologista ou por um endoscopista.
A Dra. Bruna Meirelles Carregaro explica a idade recomendada para iniciar a prevenção:
- Pessoas sem sintomas e sem histórico familiar: devem fazer o primeiro exame de rastreio a partir dos 45 anos de idade.
- Pessoas com histórico na família: quem tem parentes de primeiro grau (pais, irmãos ou filhos) com histórico de câncer no intestino deve começar a prevenção mais cedo, geralmente aos 40 anos ou 10 anos antes da idade em que o familiar recebeu o diagnóstico.
A grande virtude da colonoscopia é que ela não é apenas um teste de diagnóstico, mas também de tratamento no mesmo momento. Ao encontrar um pólipo durante o exame, o médico consegue retirá-lo na hora, interrompendo o ciclo que poderia transformar aquela lesão em um tumor no futuro.
O câncer colorretal tem cura? Entenda os tratamentos
A resposta é sim: o câncer colorretal tem cura, e as chances aumentam drasticamente quando a doença é descoberta em suas etapas iniciais.
De acordo com a Dra. Bruna, os diagnósticos precoces atingem mais de 90% de chances de cura completa. Em muitos desses casos iniciais, a remoção do pólipo ou da pequena lesão durante a própria colonoscopia ou por meio de cirurgias simples resolve o quadro, sem a necessidade de passar por quimioterapia ou radioterapia.
Avanços da medicina e tecnologia no tratamento
A medicina evoluiu de forma expressiva nas últimas décadas, garantindo abordagens muito mais seguras e menos invasivas para os pacientes.
Atualmente, o tratamento conta com recursos modernos como:
- Cirurgias minimamente invasivas: realizadas por videocirurgia (laparoscopia) ou com o auxílio de robôs, garantindo cortes menores, menos dor no pós-operatório e recuperação rápida.
- Preservação do órgão: técnicas precisas que buscam manter o intestino sem necessariamente o uso de colostomias.
- Imunoterapia e terapias alvo: tratamentos inovadores que analisam o perfil genético específico do tumor para combatê-lo com medicamentos direcionados, reduzindo os efeitos colaterais no restante do corpo.
Como prevenir o câncer de intestino na sua rotina diária?
Embora a genética desempenhe um papel na saúde, as escolhas de estilo de vida são decisivas para proteger a parede intestinal. Modificar a alimentação e adotar hábitos ativos é a forma mais eficaz de prevenção primária.
A Dra. Bruna alerta para os principais vilões da saúde digestiva: o consumo frequente de carnes vermelhas com gordura, o hábito de comer alimentos tostados ou queimados na grelha (aquela “casquinha preta” do churrasco contém substâncias nocivas) e o consumo de embutidos e ultraprocessados (como salsicha, linguiça, presunto, bacon e até o peito de peru, que muitos acreditam ser saudável, mas possui conservantes e nitritos).

Hábitos alimentares e estilo de vida que protegem a saúde
Para montar um prato protetor e cuidar do seu organismo diariamente, a coloproctologista recomenda priorizar fatores que fortalecem a microbiota intestinal:
- Consuma fibras em todas as refeições: a meta ideal é ingerir cerca de 30 gramas de fibras por dia. Na prática, monte metade do seu prato de almoço e jantar com verduras e legumes. Inclua frutas com casca, aveia, chia, linhaça e farelos na sua rotina.
- Troque os grãos refinados: dê preferência a pães, massas e arrozes integrais, que ajudam na formação adequada do bolo fecal.
- Varie as fontes de proteína: alterne o consumo de carne vermelha com opções mais leves, como frango, peixes e leguminosas (feijão, lentilha e grão-de-bico). Dê preferência a preparos cozidos, assados ou ensopados.
- Pratique atividades físicas regularmente: siga a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) praticando ao menos 150 minutos por semana de exercícios moderados (como caminhadas rápidas ou corrida), combinados com dois dias de fortalecimento muscular.
- Evite o cigarro e modere o álcool: o tabagismo e as bebidas alcoólicas estão diretamente associados à irritação das células do trato digestivo.
- Mantenha o peso corporal adequado: combater o sobrepeso e o sedentarismo reduz drasticamente a inflamação crônica no corpo.
Conclusão: informação e prevenção salvam vidas
O avanço da medicina e a disseminação de informações claras mostram que o câncer colorretal não precisa ser um tabu. Trata-se de uma condição que pode ser evitada, rastreada e curada quando prestamos atenção aos sinais do nosso corpo e mantemos exames em dia.
Observar a sua rotina intestinal, incluir fibras na alimentação e agendar a sua colonoscopia a partir da idade indicada são atitudes simples que transformam a sua saúde. Converse abertamente com um médico coloproctologista ou clínico geral, tire suas dúvidas e faça da prevenção um hábito contínuo na sua vida!