O bem-estar já faz parte da agenda das empresas. Está nas conversas de RH, nas estratégias de benefícios, nas ações de saúde mental e, cada vez mais, nas discussões sobre o futuro do trabalho.
Mas uma pergunta continua necessária: as pessoas estão, de fato, se sentindo melhor?
A 4ª edição do Check-up de Bem-estar 2026, da Vidalink, mostra que ainda existe uma distância importante entre o espaço que o tema conquistou no discurso e a experiência vivida pelos profissionais.
O estudo reúne respostas de 11.800 profissionais de 290 empresas e analisa diferentes dimensões do bem-estar, como saúde mental, saúde física, rotina, atividade física, alimentação, sono e saúde financeira.
E o principal resultado de 2026 acende um alerta: a saúde emocional piorou.
Check-up de Bem-estar 2026: 7 em cada 10 profissionais relatam sentimentos negativos
Ansiedade, angústia e desânimo estão presentes na maior parte dos dias para 70% dos profissionais que participaram do Check-up. Em 2025, esse percentual era de 63%.
Ao mesmo tempo, apenas 7% se dizem felizes e realizados, enquanto 30% estão em um quadro de sofrimento mais intenso (considerando quem se sente angustiado e ansioso ou sem vontade de fazer nada).
Mais do que a intensidade dos números, chama atenção a abrangência da piora. Ela aconteceu entre homens e mulheres e atravessou todas as gerações analisadas.
Para a psicóloga e especialista em bem-estar corporativo Gisele Caleffi, os dados não permitem colocar toda a responsabilidade pelo sofrimento sobre o trabalho. Mas também não permitem tratá-lo como algo que acontece completamente fora das organizações.
“Ela não revela uma relação direta entre o que as pessoas estão sentindo e o que o trabalho está gerando. Ou seja, não significa dizer que o trabalho explica sozinho o sofrimento das pessoas. Mas significa que esse sofrimento está atravessando o trabalho, porque é assim que muitas pessoas estão vivendo e, claro, o trabalho é parte da vida.”
O ponto, portanto, não é tentar descobrir uma causa única. É entender que aspectos como ritmo, pressão, relações, autonomia, reconhecimento, segurança e possibilidade de recuperação também atravessam a saúde.
E a ansiedade traz uma questão especialmente importante. Para Gisele, ela faz parte do nosso repertório natural de proteção. O problema aparece quando o estado de alerta deixa de ser uma resposta a uma situação específica e passa a se tornar habitual.
“Quando urgência, imprevisibilidade, interrupção e pressão viram regra, o extraordinário vira cotidiano. E aí corremos o risco de chamar de ‘normal’ aquilo a que apenas nos acostumamos.”
A piora emocional atinge homens e mulheres, mas elas continuam mais pressionadas
O avanço dos sentimentos negativos foi generalizado. Entre as mulheres, o índice chegou a 76%, 6 pontos percentuais acima de 2025. Entre os homens, houve uma alta ainda maior: de 51% para 60%, crescimento de 9 pontos.
Isso mostra que o problema não pode ser interpretado apenas como uma questão feminina. Ainda assim, a diferença entre os gêneros continua sendo um dos traços mais marcantes do estudo.
Quando perguntamos sobre a satisfação com o próprio bem-estar, 39% dos homens fazem uma avaliação positiva, contra apenas 20% das mulheres. Na outra ponta, 30% delas estão insatisfeitas, contra 17% deles.
Para Gisele, interpretar essa distância como uma suposta fragilidade maior das mulheres seria simplificar demais um problema que envolve condições de vida muito diferentes.
“As condições de vida e de trabalho não são distribuídas igualmente. Antes de olhar para a pessoa, precisamos olhar para a carga que ela carrega.”
E parte dessa carga aparece de maneira bastante concreta em outro dado do Check-up de Bem-estar 2026: 38% das mulheres conciliam trabalho, casa e família, contra 24% dos homens. Enquanto isso, 58% dos homens afirmam passar a maior parte do dia concentrados no trabalho, contra 39% das mulheres.
Ou seja, cumprir jornadas profissionais semelhantes não significa necessariamente chegar ao fim do dia com a mesma disponibilidade de tempo e energia.
Geração Z concentra os indicadores emocionais mais críticos
A idade também reorganiza o retrato do bem-estar. Os sentimentos negativos atingem 78% da Geração Z, 68% dos Millennials, 66% da Geração X e 43% dos Baby Boomers. E há um ponto importante: todas as gerações pioraram em relação a 2025.
Entre as mulheres da Geração Z, o percentual chega a 83%. Mas Gisele faz uma ressalva importante: olhar para esses números e concluir simplesmente que “a Geração Z é mais frágil” seria um erro.
Essa é também uma geração que cresceu com mais repertório para reconhecer e verbalizar emoções, ao mesmo tempo em que entrou na vida adulta em um contexto marcado por hiperconexão, comparação constante, pressão econômica, instabilidade e mudanças aceleradas no trabalho.
“Para a liderança, a pergunta mais útil não é ‘o que há de errado com essa geração?’, mas: O que esses sinais estão tentando nos contar sobre a experiência de trabalhar hoje?”
Esse deslocamento é importante. Em vez de transformar dados geracionais em estereótipos, eles podem servir como ponto de partida para entender necessidades diferentes dentro da força de trabalho.
Quase metade está no “médio”, e isso não significa que esteja tudo bem
Outro resultado importante do Check-up de Bem-estar 2026 aparece quando perguntamos diretamente sobre satisfação com o bem-estar.
47% dos profissionais avaliam o próprio bem-estar como médio, enquanto 29% estão satisfeitos e 24% insatisfeitos.
À primeira vista, estar no meio da escala pode parecer menos preocupante. Mas é justamente essa grande zona intermediária que merece atenção.
Como explica Gisele: “Entre estar bem e estar mal existe uma zona enorme de pessoas que estão funcionando, entregando, cumprindo agenda, mas não necessariamente estão bem.”
E ela resume a questão em uma frase: “Funcionar não é sinônimo de estar bem.”
Para o RH, esse talvez seja um dos insights mais importantes do estudo. A ausência de afastamento, diagnóstico ou queda visível de performance não significa necessariamente presença de saúde.
Parte do desafio está justamente em conseguir enxergar os sinais antes que eles cheguem aos extremos.
Sabemos que não estamos bem. Mas estamos conseguindo cuidar?
Se 70% relatam sentimentos negativos, seria natural imaginar uma mobilização igualmente forte em torno do cuidado com a saúde mental. Os dados mostram que não é tão simples.
Cerca de 30% dos profissionais não adotam nenhuma prática para cuidar da saúde mental. E existe uma diferença racial importante: entre pessoas brancas, são 22%; entre pessoas pretas e pardas, 37%.
Isso ajuda a deslocar a conversa de uma lógica baseada apenas em escolha individual. Reconhecer que algo não vai bem é uma etapa. Conseguir fazer alguma coisa a respeito envolve outras condições.
“Reconhecer ‘eu não estou bem’ não significa automaticamente conseguir transformar essa percepção em cuidado. Entre uma coisa e outra existem hábitos, crenças, estigma, acesso, tempo, recursos e a própria história daquela pessoa com pedir ajuda e cuidar de si.”
Há ainda um paradoxo: procurar ajuda também exige energia. E justamente alguém esgotado, desanimado ou em sofrimento pode ter menos recursos disponíveis para iniciar e sustentar uma mudança.
Por isso, para Gisele, apenas disponibilizar uma solução não necessariamente significa que a barreira foi resolvida.
“Não basta dizer às pessoas que elas precisam se cuidar. É preciso diminuir as barreiras e criar condições para que o cuidado seja possível na vida real.”
O recorte por segmento reforça essa discussão. No material consolidado do Check-up, tecnologia apresenta a menor proporção de profissionais que não fazem nada pela saúde mental, enquanto o varejo aparece no extremo oposto.
A dupla jornada ajuda a entender parte dessa conta
Quando falamos de bem-estar, o que acontece depois do expediente também importa.
Entre as mulheres, 38% conciliam trabalho, casa e família. Entre os homens, são 24%. E essa desigualdade já aparece entre os profissionais mais jovens: na Geração Z, 27% das mulheres pretas e pardas vivem essa dupla jornada, contra 18% das mulheres brancas.
Para Gisele, essa carga não se resume ao número de tarefas.
“A carga não termina quando termina o expediente. Quando uma parcela maior das mulheres precisa dividir energia e tempo entre trabalho, casa e cuidado, estamos falando não apenas de mais tarefas, mas de menos espaço para recuperação, descanso e autocuidado.”
Existe também a chamada carga mental: lembrar, antecipar, organizar, prever necessidades e garantir que diferentes aspectos da vida continuem funcionando.
Isso não significa dizer que a dupla jornada explique, sozinha, os piores indicadores femininos. A própria Gisele faz essa ressalva. Mas ela é uma peça relevante para compreender por que experiências de bem-estar podem ser tão distintas.
O recorte regional acrescenta outra camada: no Sul, 38% dos profissionais conciliam trabalho com os cuidados da casa e da família; no Centro-Oeste, são 27%.
Saúde financeira também faz parte do bem-estar
Apenas 13% dos profissionais afirmam conseguir manter os gastos controlados e, ao mesmo tempo, construir uma reserva financeira. Outros 27% controlam o orçamento, mas ainda não conseguem guardar dinheiro. Já 33% relatam dificuldade para manter uma boa saúde financeira ou uma situação crítica com dívidas.
A diferença geracional é grande. Entre Millennials, apenas 10% conseguem manter uma reserva. Na Geração Z, são 12%; na Geração X, 16%; e entre Baby Boomers, 31%.
Raça também altera esse cenário já entre os jovens: na Geração Z, 15% das pessoas brancas conseguem controlar os gastos e manter uma reserva, contra aproximadamente 8% das pessoas pretas e pardas.
E há diferenças importantes entre os setores: quase metade dos profissionais do varejo relata dificuldades financeiras ou uma situação crítica com dívidas, contra cerca de 30% na indústria.
A leitura é simples: bem-estar também é ter alguma margem para lidar com o imprevisto, fazer escolhas e pensar no futuro.
Estamos nos exercitando mais, mas menos satisfeitos com isso
Entre os hábitos de saúde, o Check-up de Bem-estar 2026 traz um dos resultados mais curiosos.
A prática de exercícios avançou: 51% dos profissionais se exercitam ao menos uma vez por semana, crescimento de 10 pontos percentuais em relação a 2025.
Ao mesmo tempo, 36% estão insatisfeitos com a frequência com que se exercitam, alta de 6 pontos no mesmo período.
Ou seja: as pessoas estão fazendo mais, mas percebendo esse “mais” como insuficiente.
O estudo não permite explicar sozinho as razões para esse paradoxo. Ele abre, porém, uma discussão relevante sobre expectativas, autocobrança e a distância entre conhecer uma recomendação de saúde e conseguir encaixá-la na vida real.
Como diz Gisele: “Saber não é suficiente para mudar. A gente sabe disso quando olha para qualquer mudança de hábito ou estilo de vida.”
Essa lógica também ajuda a olhar para alimentação e sono. No Check-up, a qualidade do sono é justamente a dimensão que concentra a maior proporção de avaliações baixas ou baixíssimas: quase 30%. Informação importa. Mas tempo, rotina, ambiente, acesso e energia também.
O que os dados do Check-up de Bem-estar 2026 pedem do RH?
Talvez a principal conclusão do Check-up de Bem-estar 2026 seja que não existe uma única ação capaz de responder a um cenário tão complexo.
Os dados apontam sofrimento emocional, desigualdades de gênero e raça, diferenças geracionais, dupla jornada, insegurança financeira e dificuldades para incorporar hábitos de saúde.
Para Gisele, isso exige também ampliar a maneira como as organizações medem sucesso.
“Uma empresa pode entregar resultado, ter baixo turnover e, ainda assim, ter pessoas exaustas sustentando esse resultado.”
Produtividade, retenção e engajamento continuam relevantes. Mas podem ser observados ao lado de indicadores como afastamentos, presenteísmo, percepção de saúde e bem-estar, horas extras, autonomia, segurança psicológica, qualidade das relações e acesso aos recursos de cuidado.
E o caminho não precisa começar por uma grande iniciativa. “Eu começaria compreendendo antes de sair fazendo. Orçamento limitado exige ainda mais precisão.”
Cruzar os dados que já existem, ouvir as pessoas, identificar onde estão as maiores dores e escolher poucas prioridades pode ser mais efetivo do que multiplicar ações desconectadas.
No fim, talvez seja esse o deslocamento mais importante que os números de 2026 propõem: tirar o bem-estar da periferia da estratégia e colocá-lo na forma como o trabalho é pensado e organizado.





